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Porque razão alguém se lembra de correr? Correr por correr é duro, cansativo, dói e até é chato. Que prazer tiram os corredores da sua corrida? Ou são doidos ou são masoquistas… Qual é o objectivo de correr? Parece não haver objectivo, noutros desportos corre-se para se chegar a uma bola, luta-se por um objectivo bem físico… Qual é a beleza de correr? No Atletismo não se pega numa bola, faz-se uma maldade ao adversário, mostra-se destreza a passar por outro e mais ainda num remate de defesa impossível… Tudo isto são frases e respectivas respostas de quem não corre. Se algumas vos parecerem ridículas, acreditem em mim que não foram inventadas, tudo isto eu já ouvi. Também, se vos parecem ridículas é porque provavelmente são fãs da corrida. Mas afinal, porque corres?

Em primeiro lugar é natural que recorramos ao argumento saúde. Corre-se por ser um bom exercício para manter a forma física. O exercício físico impõe alterações fisiológicas a todos os níveis, como a diminuição da frequência cardíaca e da tensão arterial, o aumento da oxigenação dos tecidos, hiperplasia e hipertrofia muscular. Mas esta é a parte aborrecida do bom que é correr. Bem, para mim, que até estudo essa área, não é propriamente chato. Além disso, este argumento só é válido para os “joggers”, os quais até não são propriamente as pessoas mais admiradas pelos corredores… A mais pura e terrível das verdades é que os corredores sabem bem o que são tendinites, distensões, rupturas e inflamações, principalmente a nível das canelas, “carinhosamente” conhecidas na gíria dos corredores por “canelites”. Mesmo assim, não param de correr. Portanto, a protecção da saúde já não se coloca, os corredores não estão particularmente receosos da dor, suportam-na sem pensar nisso sequer. Então, será que são mesmo masoquistas?

Não é essa a questão, antes é que um corredor que se preze quer sempre bater os seus limites, e estes só existem em si, pelo que só forçando-os, entregando sempre um pouco mais de si pode ter a retribuição pretendida. Não é como um jogador de futebol que precisa dos colegas de equipa para atingir o seu objectivo. Recorrendo a uma analogia com a moda do momento, é como se estivesse a jogar uma mão de Poker. No início o jogador tem 100€, e nessa jogada aposta 10, tal como o corredor a treinar apostaria 10% da saúde. Se for um bom jogador e não cair em loucuras ganha o que os outros apostaram e sobe para um nível maior que o anterior; se for louco e deixar tudo à sorte, perde e fica num nível inferior. Da mesma forma o corredor sobe de nível se souber fasear o sacrifício, com a diferença que o ganho vem dele próprio e não de outros; da mesma forma se não for cauteloso o corredor perde, contraindo uma lesão, ou mesmo piorando a sua performance sem razão aparente. Tanto o jogador como o corredor podem ainda ir ganhando e subindo, e num excesso de confiança perder tudo o que ganharam e mais algum do que tinham a início. Todavia, o ponto é o seguinte, para se subir de nível é necessária ousadia, correr riscos devidamente avaliados. Então, será que o corredor é mesmo um louco?

Também não é essa a questão. Pelo menos já temos um motivo: um corredor corre contra os seus próprios limites. Se isto não fizer sentido aos outros, não importa; ao corredor faz todo o sentido. Então um corredor não é um louco, ele arrisca-se com um propósito e avaliando o risco. Além disso, há muito boas sensações a retirar da corrida. O que pode ser melhor do que sentir cortar o ar a correr ao máximo da nossa velocidade, ou correr sob a folhagem densa de uma floresta num dia quente, ou na praia à beira-mar, ou sob uma chuvada medonha, ou sobre neve fofa…. E tantas outras situações em que se sente uma injecção de adrenalina e se sente como um verdadeiro guerreiro, um herói imortal caminhando entre os mortais… Que sensação pode ser melhor que exceder as expectativas colocadas, que cruzar a meta em primeiro lugar, e mais ainda, correr como nunca se correu antes!

É por tudo isso que o corredor corre. Ele pode parecer louco e masoquista, e é mesmo, mas tudo tem um objectivo. Ele ultrapassa a dor, a preguiça por momentos de glória que só o próprio pode entender, momentos insignificantes para a maioria mas que dão força para continuar. A glória, por pequena que seja, é um vício. É impossível negar o doce sabor da glória. Quantas vezes não me apetece render à preguiça, quantas vezes eu não me pergunto sobre a razão porque corro, mas acabo por ir apostar parte de mim sempre, porque já vivi momentos insignificantes que para mim tiveram todo o significado. Momentos como fazer o último percurso da estafeta 4x400m, receber em 1º com a 2ª equipa perto e conseguir dar mais de 100% para manter a posição e assegurar a vitória colectiva. Insignificante como prova distrital que era, mas, para mim, foi como representar a selecção Nacional, em situação semelhante, na final dos Jogos Olímpicos. São momentos como este que dão sabor à vida, e sentido à dor. Por isso, quando vos perguntarem porque correm, o melhor que podem responder é perguntando:

E tu, porque não corres?

Actualizado em (Quarta, 10 Fevereiro 2010 01:38)

 

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