Excelencia - Nunca aceites os teus limites antes de actuares
 

Bolt958O tempo parece ser um adversário implacável. O relógio não pára, pelo que sempre temos de tentar fazer as nossas obrigações, tarefas e passatempos no menos tempo possível. Todos nós já desejámos ter um dia com mais de 24 horas… E, a bem da verdade científica, o dia tem até um pouco menos de 24 horas… Com certeza também todos nós já nos devemos ter perguntado como alguém consegue fazer tanta coisa num dia ou alguém fazer tão pouco no mesmo tempo. Nenhum comum mortal pode parar o tempo e, na nossa dimensão humana, as complexas leis da Física de Einstein não se aplicam. Assim sendo, todos nós temos o mesmo tempo para gastar num dia. Nesse caso, se uns fazem muito e outros fazem pouco do tempo que têm, isso deve-se apenas a uma eficaz organização das tarefas, e isso tem uma importância enorme na nossa evolução atlética, escolar e social.

É fácil encontrar gente de todas as idades lamentar-se de que gostaria de fazer desporto, ou de ter um passatempo, mas que não tem tempo. Quando realmente se gosta ou se sente a necessidade de fazer algo além do nosso trabalho obrigatório de cada dia, arranja-se sempre um espaço de tempo, não importa todas as obrigações, não importa quanto tempo é disponibilizado. Posso resumir este ponto a uma palavra: prioridades. Se definir-se uma tarefa como prioritária, esta já não sai do planeamento do dia, pode porém ser mais encurtada ou alargada de acordo com as outras actividades do dia.

As prioridades são normalmente até obrigatórias. Os trabalhadores trabalham e os estudantes estudam. É claro que todos têm outras actividades obrigatórias que variam de dia para dia; uns têm de fazer trabalho de pesquisas, estudar para testes, ir ao supermercado, buscar filhos à escolha, tratar da casa. Diria que a maioria das pessoas não tem coragem de ir além destas tarefas. Mais importante; quem não vai além destas é claramente infeliz, pois não faz nada do que realmente quer. Mas, façamos contas: 8 horas de sono, mais 8 de emprego, mais 3 gastas nas refeições, 2 em deslocações, dá um total de 21 horas. Ou seja, mesmo dormindo mais do que o normal, comendo e deslocando-se mais calmamente sobram 3 horas do dia para distracção pessoal. Porém, a maior parte das pessoas, dormindo menos e vivendo mais stressadas preferem aproveitar as 3 horas que sobram a ver televisão…

Definir-se uma actividade alternativa como prioritária, pode às vezes ser interpretada por outros como uma irresponsabilidade. Acreditem que é exactamente o oposto. Todos nós necessitamos de escapes ao quotidiano para manter a nossa sanidade. Temos de manter o discernimento são para não deturpar a realidade. Aos estudantes aconselho a realizar a sua actividade lúdica entre o fim das aulas e o regresso a casa. Aos trabalhadores aconselho o mesmo, com as devidas adaptações. Fazer uma maratona, seja do que for, é psico e fisiologicamente desgastante; convém portanto alternar o esforço para que o trabalho seja mais rentável. Este acaba por ser outro princípio importante no planeamento de um dia: equilíbrio. Inconscientemente procuramos sempre o equilíbrio. É a medida natural. Por isso, por vezes sentimos a necessidade real de fazer algo diferente. Não somos mesmo robots…

Todos os dias são diferentes e quase parecem independentes. O que acontece num dia pode não acontecer no outro e vice-versa. Um dia podemos sair mais cedo das aulas, sofrer desvios inesperados, surgir uma tarefa prioritária do nada… Deve-se sempre deixar uma margem de erro para esses acontecimentos e deve-se tentar aproveitar os mesmos. Se fixámos que queríamos fazer a nossa actividade alternativa, devemos fazer os possíveis para a fazer, afinal, foi para isso que a considerámos prioritária. Mesmo se o dia corre perfeitamente normal, uma forma de poupar tempo é fazer o planeamento do dia de modo a que todas as actividades do dia se liguem como se fossem contínuas. Por exemplo, se o local de treino mesmo ao lado da escola, o melhor a fazer é treinar mal se sai de lá. Esperar pela hora marcada é entediante, e ir a casa e voltar é cansativo. Por tudo isto, o planeamento do dia deve ser flexível. Este deve ser dos truques mais importantes para esticar o dia. Imprevistos são isso mesmo, e não dependem de nós, embora possam partir de nós.

Os imprevistos podem surgir em qualquer actividade do dia, e muitos deles são antes chamados distracções. É também essencial concentração para as evitar, e alguma força de vontade. As distracções surgem por todas as formas possíveis, desde um dia frio e chuvoso, a um computador, passando por um sofá confortável ou outra coisa qualquer que possa captar a atenção e desviar-nos do dia. Atenção aqui com o princípio do equilíbrio e da flexibilidade: não é mau deixar-nos cair numa tentação, desde que a saibamos integrar no plano do dia ou, de um modo mais geral, no plano semanal. Falo essencialmente no plano do dia por causa mesmo dos imprevistos; se acontecem todos os dias alterações forçadas, o plano semanal será constantemente afectado. Não é saudável formar um plano diário rígido, este deve ser algo em construção a cada instante, a cada novo desenvolvimento.

Com uma melhor organização do tempo dá para libertar horas suficientes para nos dedicarmos a actividades alternativas. Porém, o dia terá sempre 24 horas, e existe um limite de actividades que cada um pode fazer. Se se tentar fazer mais do que se é capaz, podem acontecer situações desagradáveis, mesmo perigosas para o equilíbrio do nosso corpo. Não obstante, a melhor forma de testar até onde podemos ir é ir tentando fazer mais. Por isso, uma qualidade importante para organizar o dia é a perseverança, isto é, a força de vontade para não se curvar frente ao cansaço, a coragem para ir mais longe. A adaptação a um novo ritmo, quando aumentamos o nosso número de tarefas, deve demorar cerca de uma, máximo 2 semanas. Se o cansaço se começar a acumular, então deve reduzir-se a carga.

Pessoalmente acredito que há tempo para tudo. Não digo num dia, mas numa semana bem organizada, tenho a certeza que há. Bem, num dia, no conjunto de todos os pequenos momentos, também acaba por haver, até porque fazemos mais do que uma coisa em simultâneo. Eu acho que sou um bom exemplo de como podemos fazer várias coisas com uma boa organização. Sou estudante universitário, tenho cargos nos órgãos representativos dos alunos junto da universidade, treino pelo menos 4 vezes por semana, jogo futsal com os meus colegas, faço o meu estudo, os meus trabalhos e relatórios, não reprovei a nenhuma cadeira, aliás, tive das médias mais altas dos colegas do meu ano, tenho tempo para escrever textos como este, saio à noite, por vezes mais do que um dia por semana, e ainda tenho de tratar da casa, cozinhar e ir às compras; e faço tudo isto sem ter carro para me poupar tempo em deslocações. Para terminar deixo mais uma citação, desta vez um verso da autoria de Ricardo Reis.

“Para ser grande, sê inteiro”

 

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